2 poemas de MARCELO FRAZÃO

DESPEDIDA

Ele rega meu jardim
com gasolina
senta na soleira
acende um cigarro
quer se despedir

e vai

apenas observo
mudo
do outro lado.

 

INFERNOS SE MULTIPLICAM COMO VÍRUS DENTRO DA GENTE

Com aqueles
que preferem
vinho doce
aos secos
não há diálogo possível

estas e outras coisas
só percebi
quando meus gatos me acordaram
recitando Lorca.

 

 

Marcelo Frazão publicou os livros de poemas Haikai (1996) e Homo Sapiens Sexualis (2ª edição, 2015). E nada pode ser feito quanto a isso, na coleção Cartas Bahianas Editora P55. Entre as publicações em parceria, destacam-se a plaquete Loveless (1996) e os livros Erótica (1999) e Erótica – edição comemorativa de 20 anos (2019), com Armando Freitas Filho; e Anima Animalis (2008), com Olga Savary, vencedor do Premio APCA em 2009.

 

POESIA: UM FINÍSSIMO E VIGOROSO FIO

FRANCISCO DAS CHAGAS SOUZA CARVALHO FILHO

Talvez seja a poesia o finíssimo e vigoroso fio que te mantém neste mundo, o frenesi dela a encher tua mente de vida. De outro modo já terias pedido para fechar a conta. Certas vezes, não há poesia que salve. Sylvia Plath, Sá-Carneiro, Alejandra Pizarnik, Florbela Espanca e outras tantas figuras que eu poderia citar decidiram fechar a conta. Torquato Neto também o fez. Não raro, os poetas são perseguidos por uma entranhada tristeza misturada à própria existência deles. Eu, poeta desconhecido e arredio, tenho picos de melancolia, mas aqui estou, vivo. Resistindo para quê? E por quê?

“Apenas a matéria vida era tão fina”, escreveu e cantou Caetano, no trecho retirado da letra da belíssima canção Cajuína. De tão fina facilmente se desfaz. Eu reparo nas brasas e nos incêndios, observo a gelidez e a euforia daqueles ao meu redor. Há casos em que quase nada me resta a fazer diante de pessoas queridas extremamente moídas pela existência. O que fazer perante Troias quando sou incapaz de construir cavalos de madeira? Tento algumas aproximações, mas sou repelido pelo que há de mais inquietante, o silêncio. Meus problemas, não poucos, são esquecidos nessa hora. Lanço a mão e ela não chega.

Qualquer um de nós é suscetível a ser tomado por uma tristeza capaz de nos desmantelar o ânimo e a vontade de viver. Alquebrados e macerados todos os dias, procuramos algum sentido em meio a tantos problemas e sofrimento. Eu mesmo tantas vezes tenho sido hospedeiro da dor. Em algumas ocasiões a vida nos pisoteia de tal maneira que desejamos algum subterfúgio, uma saída do inferno de decepções, traumas e certa indiferença doentia. É como se clamássemos pela evasão. Escreveu Camilo Pessanha:

Eu vi a luz em um país perdido.
A minha alma é lânguida e inerme.
Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!
No chão sumir-se, como faz um verme…

Longe de mim querer me tornar o verme de Pessanha, não obstante um tempo só para si, longe do burburinho até faz bem. Sou uma incoerência a não recusar a vida, a contemplar e lamentar as numerosas desgraças. Eu sigo porque ainda a aguento. Sou como o lenhador da estória ao encontrar-se com a morte. Mais perdido do que achado, eu sigo. Sou teimoso! Esperançoso? Não posso afirmar. Contraditório e vacilante, porém sigo, o que não me impede de aceitar que para determinadas pessoas uma hora ou outra o casco do navio racha. O desespero se apossa como nos versos abaixo de Sá-Carneiro:

Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço…
A hora foge vivida,
Eu sigo-a, mas permaneço.

A mente torta como os galhos de um cajueiro, o pensamento irrecuperável das cinzas e da doença, o devastador do Eu a devorar o Eu. De repente, ou desde sempre, o ferro quente na pele, a cicatriz do sofrimento presa ao tinteiro antigo daquilo que alguns chamam de alma. E quando o mundo se enraivece, e os olhos horrorizados se calam, acho-me estupidamente cansado. A despeito de tudo isso vou vivendo. Um dos versos de Bocage diz o seguinte: “A morte para os tristes é ventura.” Apesar de tudo, aprecio demais a vida.

Penso em ti, criatura querida. Como estás? Teu amor à poesia e à literatura decerto permanecem. Nisso há um laço entre nós, um fio conduzindo venturas. Tenho andado melancólico. Nem imaginas o quanto. O melhor do poeta, penso eu, é a poesia. Não tenho pretensões de originalidade nessa fala. Apenas a vontade de expressar, bem ou mal, um pouco de mim. Neste instante existe uma solidão em nós cuja densidade nos quebra. Teria sido melhor não haver escrito verso algum? Jamais haver se compadecido das desventuras de Bocage? Nunca ter se decidido poeta ao ler Rimbaud?

Aqui e ali eu fujo de mim. Não pretendo imitar o caminho da reclusão de parte significativa da vida de Emily Dickinson. Força! Preciso de força para arredar o pé de mim. Tudo me parece alheio, uma anestesia diante da vida, mas eu tomo choques para acordar. Sem essa de que todo poeta é triste. Novamente leio Lamentações (atribuído ao profeta Jeremias) e me coloco na atmosfera do poema. Não quero ser a cidade arrasada. Pensamos demais! Será essa a causa da pane? Será esse o fator determinante? Estou relendo os poemas de Pessoa. Alguns deles me ardem. É como se eu os tivesse escrito.

O cultivo da poesia conduz à tristeza? Não necessariamente. Jamais acreditei nisso. Ou acreditei? Sem a poesia o que me eleva? Não passo de um sujeito banal sem ela. Estou cansado! Cansado de quê? Troço de poeta, será? Leio um pouco de Rimbaud para desapegar do desânimo. Que venha o sátiro de Charleville. Com ele se dissipa a sensação de redemoinho, ao menos a minha.

Francisco das Chagas Souza Carvalho Filho é autor do livro de poemas Onde estão meus girassóis? (2022, Editora Tremembé), além de poeta é ficcionista e estudioso da literatura. Mestre em Letras pela UESPI, colunista da Revista Piauí Poético. Participou de diversas coletâneas literárias.

2 poemas de LORENA GRISI

CARTOGRAFIA

No canto da tela com o mapa,
há uma escala de grandeza que diz
1:300.

Cada trezentos metros do meu caminho estão reduzidos a um centímetro,
nessa escala de grandeza cartográfica.

Acho engraçado dizer escala de grandeza.
Eu poderia falar: Numa escala de grandeza, eu parti o pão e te deixei o pedaço maior.

Se diz também está para, na leitura das escalas: “um está para trezentos”.
Esses trezentos metros foram reduzidos
para que, no caminho,
eu não desvie o olhar,
para que eu esteja para,
ou o objetivo de chegar
não se cumpre.

Na física quântica,
o lugar existe enquanto eu olho para ele.
Ele está para mim,
reduzido à escala de minha retina,
que é de 1:10 metros de visão frontal e periférica.
Para mais que isso, o mapa
e a grandeza de encerrar o que não existe,
porque não estou olhando.

O TRABALHO DAS ÓRFÃS

do que sobra das barricadas
colar com ouro as rachaduras
para o tempo que outra vez chega
colar com ouro as rachaduras
no fundo dos vasos planos de revolta
farelos de espinhos
o futuro era mentira
mas era inteligível
o acaso permitiu a existência desta terra
toda noite um homem sepultado
à noite
e uma órfã sem filhos
a espoliar cavernas

Lorena Grisi nasceu em Salvador. Publicou o livro de poemas Exercícios físicos (Editora Paralelo13S). Tem textos publicados na coletânea Hilstianas vol. 1 (Editora Patuá/Instituto Hilda Hilst, 2019), no Mapa Brava e nas revistas Felisberta e Diversos Afins, dentre outras. Cursou o CLIPE de Poesia da Casa das Rosas (SP) e participou do projeto Escritas em Trânsito, da Fundação Cultural do Estado da Bahia. Contato: @instagrisi

2 poemas de WÉLCIO DE TOLEDO

NOVAMENTE A ESTRADA

marco o tempo
pela distância entre os postes que se despedem de mim na estrada
não há por que ter pressa
abasteço-me de ausências
são muitos os buracos crescendo em meu caminho
entradas e saídas testam minha atenção
meus reflexos
reflexões vagas
de quem vaga
sem controle da direção
argonauta do asfalto
singrando a esmo
nos centros
nas margens
cidade-saudade
seres e máquinas
de todos
os tipos e marcas
me ultrapassam
placas
letreiros
out
doors
sinalizam
o quanto estou ultrapassado
uma recaída no retrovisor
agora não há mais retorno
o jeito é seguir na contramão

ALGA

algo
de
nós
nos
amarra
ao mar
como
amar
algo
que
se
sobressai
das
raias
do
chão
nos
faz
flutuar
como
se
algo
houvesse
entre
nós
e
o mar

Wélcio de Toledo é poeta, professor, pesquisador, doutor em Literatura pela UnB. Possui artigos, textos e poemas em diversas antologias, coletâneas e revistas literárias. Integra o Coletivo Anarcopoético que organiza ocupações anarcopoéticas em espaços abertos de Brasília, com música, poesia, exposições ao ar livre, performances e o que mais surgir de arte. Publicou quatro livros de poemas e um de contos. Em 2023 publica mais dois livros, um acadêmico e outro de poemas.

TÁRTARO

J.L. ROCHA DO NASCIMENTO

– No portal do inferno, Hades organiza a fila:
– Genocida?
– Falando comigo?
– Sim. Você não é aquele que disse?
– Sim, sou seu mesmo.
– Certo, os dados conferem.
– O que houve com o seu rosto?
– Excesso de exposição ao…
– Poupe-me dos detalhes, sei do que se trata.
– Qual a fila?
– Primeira à direita. Em seguida, siga em frente. No final você encontrará Caronte, que o aguarda na margem do rio. E não esqueça: as três moedas não podem ser falsas.

João Luiz Rocha do Nascimento (Oeiras, PI, 1959) é escritor, professor e magistrado. Mestre e doutor em Direito Público pela Unisinos-RS. Autor, dentre outros, de Os pés descalços de Ava Gardner (contos, 2020) e Na caverna de Platão (contos, 2023).

ADHJAMBO

NATAN CAMPOS

Aos cento e dois anos de idade Adhjambo ainda azeitava os gonzos de seus quadris para abrir as portas de suas carnes e dar à luz do mundo mais um filho. Já eram tantos que os nomes tinham que se repetir e nunca era possível que estivessem todos perto dela. Muitos foram embora para nunca mais, por vontade própria ou levados pela de outros, mas outros muitos ficavam ali na terra que os viu nascer, esperando o dia em que deveriam voltar ao útero de Adhjambo.

De todos os filhos que viviam espalhados pelas várias aldeias e pelas grandes cidades, nenhum conseguiu convencer a mãe a deixar de morar debaixo do imenso baobá que podia ser visto a quilômetros de distância. À sombra daquela árvore era que ela tinha parido o primeiro rebento e era onde haveria de gerar o último, que de alguma forma ela sabia que deveria ser tirado de dentro de suas entranhas por outras portas, abertas a ferro, quando ela já não pudesse mais. Era também ali que enterrava cada um dos seus que não resistiam ao tempo. O imenso baobá protegeria suas almas.

Um dia Abeba, tataraneta de seis anos, sonhou por que a velha morava ali e foi sentar-se ao lado dela. Adhjambo regou sua cabecinha com algumas lágrimas e soube que podia morrer em paz outra vez. Depois de tantas vidas, mal se lembrava de quando tinha plantado aquele baobá de quase seis mil anos.

Natan Campos é o nome literário de Natanilson Pereira, autor maranhense de contos, cordéis, romances e sonetos. Participou de grupos literários como Curare e Carranca na década de noventa e atualmente dedica-se também à música. Tem publicado pela Penalux o livro de sonetos A Ilha Naufragada.

OLHOS ARREPIADOS DE BREU

THAINÁ CARVALHO

As manhãs estão cada vez mais escuras
e assombrosas,
as roupas não secam no varal
e as árvores balançam
loucamente,
não sei se em dança
ou em aviso.
As manhãs estão cada vez mais escuras
nesse mundo bravio,
as ondas atingem já tantas alturas
que se confundem em nuvens,
as pessoas observam e aguardam
metade temor, metade expectativa
o naufrágio íntimo de suas vidas
em tragédia absoluta.
As manhãs estão cada vez mais escuras
uma tempestade que nunca chega
paira sobre nossas cabeças
gigante e ameaçadora
odisseia homérica
que nunca se encerra
e nossos olhos
(acostumados à crescente escuridão)
já não inventam monstros
nem choram desterros,
mas como há sobrevivência
sem os medos da boca
do estômago?
Como ousar a fé
sem as mãos dadas
para fazer milagres?
Escuras, as manhãs invadem
o acordar esperançoso
para um dia mais
ou menos
e já não podemos crer,
mesmo agarrados ao horizonte
em busca do sol,
que haja luz.

Thainá Carvalho é escritora e colagista sergipana. É criadora da revista Desvario, uma publicação digital sem fins lucrativos voltada à difusão da literatura contemporânea criada por mulheres. Lançou os livros de poesia As coisas andam meio desalmadas (2020) e O Amor em breve anatomia das horas (2021). Organizou, com Amanda Reis, a antologia de poetas sergipanas Passos da pedra ao mar.

A SEDE DA ORQUÍDEA

ROBERTO AMARAL

Ao mitigar a sede diária
dessa orquídea de brancas pétalas,
nutro-me com sua decomposição.

O cuidado
que ela me requer
dispõe-nos na luta
contra mútuos empalidecimentos.

Um dia,
ambos,
teremos sido
sementes dispersas
e desperdiçadas,
cultivadas em solo raso.

Por enquanto,
ao regar
o seu irrisório torrão,
faço-me humano de metal,
e, ela, se perpetra
em flor de plástico.


Roberto Amaral (Palmas/TO) é escritor, poeta, ensaísta e professor. Autor de Veredazinhas eleitas: rasuras lacanaianas em Grande sertão: veredas (no prelo); A teofania em Grande sertão: veredas; Do mundo, suas delicadezas; 54 [+ uma] mulheres do baralho; Contos extraviados; Uma Denise; Le mot juste; e Paul Ricoeur e as faces da ideologia. Organizador e autor do livro Leituras superviventes de “O burrinho pedrês”.

NIARA

NATAN CAMPOS

Depois de dez anos, a praga e a fome causada por homens sem fome deixaram a família de Montsho reduzida a ele próprio, dois filhos quase homens e a pequena Niara. Um dia Montsho e os dois filhos saíram para caçar a comida. Niara, que recebia certo silêncio por ter nascido para a morte da mãe, tinha a incumbência de preparar o fogo para quando chegassem. Mas daquela vez quis mostrar que era mais capaz que isso e os seguiu escondida, com o intuito de pegar a caça antes que eles o fizessem. O fogo ela acenderia com os olhos, como lhe havia ensinado a mãe em sonho e em segredo. Os homens não podiam saber daquelas mágicas de mulher.

No entanto, quando Daren, o filho mais velho, almejou a presa que se escondia atrás de uma touceira e foi buscá-la, sua alegria se transformou num grito de tristeza e dor.

Os três carregaram o corpo de Niara até as margens do Kouilou-Niari e lá o deixaram para que as águas a levassem em paz quando subissem.

Naquela noite, Montsho e seus filhos choravam e tinham fome porque não tiveram mais braços nem pernas para caçar depois do triste acontecimento. Mas quando já quase dormiam de tão fracos, ouviram batidas na porta. Faraji, o mais jovem, foi ver o que era. Niara, com naturalidade, pediu para que os irmãos a ajudassem com o animal que a custo arrastara até ali. Agradeceu os irmãos e nunca mais teve que acender o fogo com as mãos. Agora todos sabiam.

Natan Campos é o nome literário de Natanilson Pereira, autor maranhense de contos, cordéis, romances e sonetos. Participou de grupos literários como Curare e Carranca na década de noventa e atualmente dedica-se também à música. Autor do livro de sonetos A Ilha Naufragada.