ÁFRICA-MÃE

 

ELIO FERREIRA

1

África-Mãe do primeiro AMOR,
África-Mãe do primeiro DEUS,
África-Mãe da primeira MULHER,
África-Mãe do primeiro HOMEM,
África-Mãe de todos os POVOS,
África-Mãe da RAÇA HUMANA.

O meu avô e a minha avó
viviam felizes na África:
ele era o rei,
ela era a rainha,
um outro súdito.
Um era sacerdote e curandeiro,
o outro guerreiro.

O meu avô e a minha avó
viviam felizes na África:
um era cirurgião, o outro inventor
e ferreiro,
um outro poeta, cantor
e alabê.

O meu avô e a minha avó
viviam felizes na África:
um era mineiro, o outro babalorixá,
um outro alufá.
Um era lavrador e vaqueiro,
o outro oleiro.

O meu avô e a minha avó
viviam felizes na África:
uma era professora, a outra flandreira,
uma outra costureira.
Uma era rendeira, a outra doméstica
e comerciante.

O meu avô e a minha avó
viviam felizes na África:
um era marinheiro, o outro advogado
e historiador.
Um era carpinteiro e pedreiro,
o outro construtor.

O meu avô e a minha avó
construíram as Américas,
O meu avô e a minha avó
construíram o Brasil.

2

O meu avô e a minha avó
foram escravizados na Europa,
e a Europa ficou rica,
e os ricos da Europa ficaram + ricos.

O meu avô e a minha avó
foram escravizados nas Américas,
e os colonos das Américas ficaram ricos,
e os filhos,
e os netos,
e os tataranetos
dos colonos ricos das Américas ficaram + ricos
+ podres-de-rico
+ podres.

O meu avô e a minha avó
construíram as Américas,
o meu avô e a minha avó

construíram o Brasil.

 

Elio Ferreira (Floriano, PI, 1955 – Teresina, PI, 2024) Poeta, capoerista e rapper. B.Boy do Movimento Hip-Hop no Piauí. Professor de literatura na Universidade Estadual do Piauí. Publicou, dentre outros,  Canto sem viola (1983); Poemartelos (1986); O contra-lei (1994).

 

2 poemas de LAU SIQUEIRA

JÁ NÃO HÁ PAREDES MIGRANDO NA TUA
AUSÊNCIA…

Quando arranquei
teus olhos da parede
perdi as unhas.

Perdi o olfato
arranhando memórias
.        ……    .do teu cheiro.

Perdi a pele dos dedos
e senti os ossos raspando
as janelas do desencanto.

Já havia perdido a razão
exata de todas as certezas.

Era dor, mas
também libertação.

O cerco do teu olhar
vigiava a minha sede.

Dedos sem carne
alguma. Coração
fugindo pela boca.

‘Coloquei teus olhos
sobre a mesa e decidi
guardá-los na distância.

Não furei as pálpebras
nem salguei a íris.

Deixei as lágrimas
secando na sombra
solene dos dias…

Mirei de frente aquele
imenso desapego.

Fiquei só.

Sem unhas, sem a pele
descarnada dos dedos.

Falanges esquecidas
sem o sangue apodrecido
da despedida.

OS ERÊS DE GAZA

As crianças de Gaza
não brincam mais.

Não comem mais.
Não dormem mais.

Vivem no martírio
da próxima explosão.

Quem sabe os passos
de um soldado com
olhos de extermínio.

Um rio de sangue
corta o deserto,
singrando lágrimas
mediterrâneas…

Há um silêncio
de morte que
o mundo não
escuta.

LAU SIQUEIRA nasceu em Jaguarão, no Rio Grande do Sul e reside há décadas na Paraíba. Publicou dez livros de poemas e participou de diversas antologias no Brasil e no exterior. Possui diversas parcerias musicais e é autor juntamente com o músico e amigo Paulo Ró do álbum Quarta Capa. Escreve sobre arte, cultura e literatura em portais, jornais e revistas.

2 poemas de SÍLVIA SAES

A FLORICULTURA

a porta abre para o ar condicionado de uma galeria com folhagens
e flores ordenadas em estantes de vidro dos dois lados

aquele não-sei-quê que sempre se busca, aquele vivo frescor
das flores, ali não deixou rastro

na floricultura nada se mexe ondeia ou esvoaça, tudo jaz em
cor estagnada

ao fundo atrás da bancada de xaxins e buquês embalados,
o dono da loja completa o quadro:

luz fria sobre as faces pálidas, seu corpo é vulto extenuado no
chumaço de um tempo sombrio

não é dia nem noite, na floricultura tudo mergulha em
comprida madrugada

as rosas exalam a fragrância dos velórios

o dono da floricultura, insepulto das horas, planeja enterrar-se
nas pétalas antes da aurora

GOTAS

colecionarei gotas
fixarei seu mágico e rotundo brilho
quando não cabem mais em si
tão preenchidas de si mesmas
no indevassável núcleo
onde sorvem o vácuo
em vertiginoso giro
antes de escorrerem pelo vidro embaçado do box
gotas infensas ao fio das facas
saboreio o nome: gota
e penso nas espécies de gotas
de chuva, de suor, de sangue
de orvalho sobre as gotas de lágrimas
gotas do tempo no soro do conta-gotas
inesperados declives na curva
dos lábios
a menor parte da gota é gota
uma gota abraça todas as outras dentro dela
cada gota é uma boca
cada instante uma face
quantas bocas falam pela sua boca
quantas pernas andam pelas suas pernas
quantos olhos veem pelos seus olhos
e você some em espiral profunda
antes que eu alcance a pergunta
que suas mãos me fazem
colecionarei gotas
antes que partam as embarcações
sob a chuva fina
o que me ocupa tem asas
o que me ocupa tem pés
o meu corpo tem um corpo
que não cabe
tenho mãos que agem
dentro das mãos
quantas mãos se escondem nas asas
os peixes saltam das margens
das gotas
quantos bichos estão na minha carne
quantos nela esperam ofegantes
o próximo salto
quantos corpos no meu corpo
quanto do meu corpo no seu
pássaros inquietos percorrem
meu sangue
quantas gotas de mel
abrem as comportas
do seu nome


Sílvia Faustino de Assis Saes é professora de Filosofia na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia (FFCH-UFBA), autora de livros e artigos sobre Filosofia da Linguagem e Estética. Notas totais sobre partículas é o seu primeiro livro de poesia.

2 poemas de SAMUEL MARINHO

OBSOLESCÊNCIA PROGRAMADA

escrevo no meu caderno
só pra tatear a página ao lado
o destino de todo moderno
é ser ultra
passado

HIERÓGLIFOS DO FUTURO

A forma das cidades muda mais rápido,
bem mais, que um coração mortal
Baudelaire, “O Cisne”

eis aqui
gravado em alguma parte
a primeira metade da arte
o transitório
o contingente
o ilusório
a efêmera
ultramodernidade
(o que para alguns seria
mero objeto de descarte)

a outra metade
a meta da arte
o imutável
o absoluto
o infindável
a glória
a encantar-te
não caberia sequer
no segundo encarte

é desde a antiguidade
uma questão
de vida ou morte

luta corporal incessante
de reter o poético no histórico
de extrair o perene do instante

o que os antigos modernos
chamariam de eternidade

Samuel Marinho (São Luís/MA, 1979) é poeta, autor dos livros Pequenos poemas sobre
grandes amores (2002), Poemas in outdoors (2018), Poemas de última geração
(2019, finalista do Prêmio Jabuti de 2020), Fotografias para perfis fakes (2021) e
Antiquário Moderno (2023). Os poemas selecionados são do livro Antiquário Moderno (Penalux, 2023).

2 poemas de HERMES COÊLHO

.

não houve resgate quando fui violado
as escaras da alma não pude curar
deixei-me deitar no campo de sonhos
refugiei-me neles sequei o pranto
cipó que usei para me salvar
a cada quimera desfeita eu descia um pouco
rumo à floresta densa pavores turvos
e descobri um novo mundo
no meio da fauna e flora multicolor
vivi amores calei rumores me permiti
dancei com indígenas nus na aldeia
fiz amor com botos sob a lua cheia
transformei minha dor em frenesi

a seca da cidade é meu lençol
envolve a pele em ondas
cicatriza as feridas da labuta
e dos esforços ocos dos dias
aceito o açoite do cerrado
deixo meu corpo marcado
alma vagando vazia

Hermes Coêlho nasceu em Teresina, Piauí, em 1977. Reporter e editor da TV Senado, em Brasília. Autor de Nu (poemas, 2002) e Violado (2023, poemas). Os poemas aqui publicados fazem parte do livro Violado (Editora Patuá).

MAU PRESSÁGIO

VANESSA TEODORO TRAJANO

Manoela era uma daquelas jovens mulheres cuja tristeza funcionava como uma espécie de adereço, capaz de sorver a atenção alheia feito entidade ou qualquer figura que o valha. Chegava a ser alucinógena.

Para além desse detalhe, ela tinha – talvez seja impossível nominar com fidelidade – um sestro ou mania de escandalizar-se sempre que via alguém descascar o esmalte com as unhas. Um dia, acertou-me uma palmada ao ver que me dava a esse prazer, e perdi a coragem de confrontá-la, pois a bonita se pôs a choramingar logo em seguida – aí eu quem derreti vendo-a em tal estado. Ela se liquefazia e ainda assim permanecia intacta.

Devia haver algum motivo especial, porém evitei descobrir – vai que desencantava? Às vezes, o melhor remédio para o amor é desconhecer.

E ela era tão afeita à sua vazão submersa, que eu só quis encostar na sombra e usufruir, sem fazer alarido. Nem tudo era ruim. Estávamos entregues, desde os últimos meses até sabe-se lá quando.

Por isso, propus somarmos as dívidas e a rotina e partimos para um modesto apartamento pertinho da praia. Durante a mudança, perdemos coisas e quebramos outras, no entanto nada reteve mais a minha atenção do que aquele recorte de jornal, cuidadosamente enfiado na fundura de uma caixinha de lembranças, as quais nunca compartilhou comigo, fosse por egoísmo ou individualismo cruel; nele o seu rosto atravessava o choque que havia sido a perda da mãe, num acidente de ônibus. Dele foi sobrevivente, a contragosto, dado os olhinhos apartados da alma. No texto, uma pequena entrevista com o milagre da vez: o que fez o motorista perder o controle? Manoela não sabia: descascava as unhas no exato momento da tragédia.

Tive o cuidado de recolocar o artefato em seu devido lugar, e se ela se escafedesse se soubesse que eu sabia? Se eu mesma agora quisesse sumir? Antes a penumbra a qual estava habituada, o amor é insustentável na ausência de um segredo.

A vida foi passando e tentei boicotá-la, amor, as suas unhas precisam de um retoque, e me metia a descamá-las, embora levasse um tabefe, como tinha a audácia de desobedecê-la em seu trauma inexplicável-agora-compreensível? Municiada pelas minhas investigações, busquei arrancar dela o porquê de tamanha reatividade. Aquela mulher se desmontou inteira, então me vi obrigada a me conformar com mais uma desculpa mal contada e ficamos “de bem”.

A saída para a teima sem fim era cultivar um pequeno ato de rebeldia conjugal na sua ausência. Acontece é que, numa dessas, depois de arrancar com perfeição a tintura, bateram à minha porta dois policiais com certo ar de consternação.

Longe de desconfiar de imediato a desgraça que me traziam, perguntei o que queriam, e me disseram, sem muito rodeio, a Manoela foi atropelada a algumas quadras de casa. É óbvio que a minha intenção primeira foi saber para qual hospital levaram-na, coitada, devia estar precisando de mim, e eles se entreolharam, dessa vez hesitantes e talvez sensíveis demais para a farda: ela está morta, senhora. Lamento.

Arregalei os olhos e, depois de alguns instantes que não saberei mensurar, avistei a cabeça dos dedos completamente limpos. Lembrei de perguntar: se matou ou morreu?

É certo que estranharam a questão, por que a colocava à mesa numa hora daquelas, em que eu deveria, como boa esposa, desmaiar e estrangular as pálpebras, mas, de repente, a iminência de um presságio pareceu-me mais urgente – eu teria o resto da vida para chorar a morte dela.

Não sabemos ainda, responderam. Nos acompanhe, por favor.

Vou tomar uma água primeiro. Um momento.

Eles me deram o tempo necessário, aprovei a conduta. Pelo menos não eram uns brutamontes. Daí pensei que, se ela estivesse aqui, jamais me permitiria ter cedido à vertigem do hábito. Pensei também que seria apropriado ir com as unhas bem tingidas, antes que me tomassem como suspeita.

Vanessa Teodoro Trajano, apesar de nascida na Terra do Sol do Equador e residente no coração do Brasil, é pertencente a todos e a lugar nenhum ao mesmo tempo. Cidadã do mundo, atravessa a vida melhorando os textos alheios e contando as próprias histórias – seja na literatura, com Mulheres Incomuns (2012), Poemas Proibidos (2014), Doralice (2015), Ela não é mulher pra casar (2019 – Finalista do Prêmio Guarulhos de São Paulo na categoria Livro do Ano) e Supermulher e outras performances poéticas (2020 – Ebook pandêmico), seja no cinema, com o Curta-Doc A DESunião faz a FORCA! (2022). 3 noites com Maria Eugênia é o seu novo deslocar-se do mundo.

2 poemas de LAÍS ROMERO

MÁTRIA

Meu corpo encontrou um ritmo
meu corpo abrigo
país dos meus filhos
meu corpo ferido frio
corpo dormindo
capataz dos meus delírios
corpo vasto território
corpo de corte e tintura
mapa em relevo da dor
meu corpo sereno
corpo, pelos e suor
meu corpo diz e asseguro
estar a caminho
no presente
e nos medos multiplicação

Meu corpo aberto e preciso
Coragem, eu insisto

ESTUDO Nº 7

Dos teus olhos de âmbar
escapa a minha dança
e sobram outros segredos

Duros aspectos do medo
sinto meu pulso revidar
um ritmo atravessado em garganta e
ainda em dança em dança
no âmbar de nossos anseios

Laís Romero nasceu em Teresina, PI, em 1986. Mestra em Letras pela UESPI e especialista em escrita e criação pela Unifor. Atualmente, trabalha como revisora e editora. Mátria é sua primeira publicação solo

SEREIA NO COPO D’ÁGUA

NINA RIZZI

leio ‘changing diapers’
cada verso me detém tua visão bebê nadador
– nadadora? nunca terá um sexo que te definha
o índio geronimo me aparece enquanto agonizo tua visão antes da queda

por que voa, tupã?
pra onde quer ir tão fundo n’água
se meu corpo te prende todo líquido?

voaríamos muito além essa cidade submersa
casinhas com jabuticabeiras, bancos cimentados
galinhas que ciscam a generosidade e nos dão seus filhos-ovos

te dei meus melhores ovários
– o melhor é o desejo, essa vontade e potência

me foge água, sangre
pedaços por entre as pernas
essa dor ma
is dilacerante que o parto da tua irmã

nada por entre os meus fundos num rasante até o fundo da privada
tão longe parece o esgoto e visto daqui em nada parece uma roseira
meus olhos são seu líquido amniótico
seu mergulho que me dói o corpo torna real o dilaceramento que brota
do coração. rasga o ventre da tua mãe, tupã!
rasga esse corpo ex-prenhe que te prende!

“ausência de batimentos cardíacos”
o que faz teu coração que não bate
e me bate, me bate?

ponho as mãos no coração
só posso escutar o naufrágio correndo pelos olhos
– escuta! minhas pernas bambas te esperam

te vejo o mergulho, bebê translúcido-encarnado
tem o tamanho da palma da minha mão mais bonita
teus braços e pernas incompletos dão forma
ao último painel do jardim das delícias
se fecho o tríptico o mundo se me fecha
fecho os olhos
choro tão alto a convulsão
mãe no copo d’água

afundo a mão no sangue
minha vagina dói tanto
– oxalá pudesse conceber a poema mais feliz de se dizer boceta
te afundo a mão no sangue
até as mãos o todo sangre
bebê na palma da minha mão mais bonita
te mergulho nessas lágrimas o copo mais cheio

não te dou a vida
também me a perco
os peitos se me derramam
ardo, rasgo a noite, atravesso o dia
e você é o pássaro que me foge o corpo-jaula
eu-jaula não me converto pássaro
abro a boca

tupã. tupã. tupã.

por que me voa se tenho os pés pegados na terra árida?
por que me voa se a jaula se me fecha?
ardo, rasgo a noite, atravesso o dia
e deliro que frutos muito amargos se misturam às minhas vísceras em maus-augúrios
abro a boca

tupã. tupã. tupã.

metade de mim morre quando homédico me diz aborto
metade de mim morre com tua visão de mergulhador da privada

e voa, voa pássaro coração-de-pedra. nada desse corp’água
nada mais que até o fundo
nada mais que longe das crianças que sonham leites
nada mais que ao largo da palavra mãe

você me deixa. você me deixa. você me deixa.

o delírio me cobre os olhos
estou dormindo?
não temos a casinha, as jabuticabeiras, as cabrinhas

não te seguro mais
mergulha e voa até o fim
nada mais que até o fundo
desaparece o corpo, eu também sou essa dissolução
a sombra da tua sombra

a grande mãe da noite vem me visitar
estou dormindo, mãe?
que posso ser agora se não posso te ser a mãe?
a mãe imensa abre a boca da noite
é um copo
eu sou sua mulher
sereia no copo d’água

NINA RIZZI é escritora, tradutora, pesquisadora, professora, editora e curadora. Promove diversas oficinas de escrita criativa, como “escreva como uma mulher” e “da poema à poesia”, tendo viajado o país com as oficinas pelo Projeto Arte da Palavra do SESC e pelo Siseb – Sistema de Bibliotecas Públicas de SP. Tem poemas, ensaios e traduções publicados em diversas revistas, jornais, suplementos e antologias como As 29 poetas hoje, organizada por Heloisa Buarque de Hollanda, dentre outras no Brasil, Argentina, Chile, México, Peru, Alemanha, Espanha, Portugal, Suécia, EUA, Canadá, Angola e Moçambique. Autora de livros como quando vieres ver um banzo cor de fogo, sereia no copo d’água, caderno-goiabada e os infantis A melhor mãe do mundo e Elza: a voz do milênio.

2 poemas de NEURIVAN SOUSA

DO MEU JEITO

te quero, moço
entrincheirado
na convergência
das minhas pernas
onde me faço
areia movediça

te quero, moço
despido do teu eu
e de alter ego
sem palavras
sem requintes
sem metáforas

te quero apenas
de pavio aceso
e subserviente
aos meus ditames
nutrindo o fluxo
dos meus pecados

ESCÂNER

no teu cruzar de pernas
o apocalipse me alcança

sete relâmpagos caem
sobre a testa do meu anjo

e antes que eu retenha
o ônix do instante crípton

ou leia teu hieroglifo vésper
tu fechas a porta da galáxia

NEURIVAN SOUSA é poeta e professor, natural de Magalhães de Almeida, MA (1974), mas radicado em Santa Rita. Suas principais obras são Lume (2015); Palavras sonâmbulas (2016); Minha estampa é da cor do tempo (2018); No éter da voz (2022); Flor de malagueta (2023).

2 poemas de ANTONIO AÍLTON

ELEGIA
A Harold Bloom

Dez por cento
de inveja e mágoa
(bem abaixo do mercado
de formas afetivas)
Dez por cento
de rancor e vingança
(bem abaixo do mercado da superação)
Dez por cento de reciprocidade
da disputa
por formas linguageiras, territórios
(pouco abaixo do mercado de coca
e do tráfico de animais)
Dez por cento de roubo de água
da vida líquida do poço alheio
Dez por cento
daquela reescritura de ferro-velho
(bem abaixo
do ainda usual mercado de ready-made)
Dez por cento
de artefatos armados
(bem abaixo das pragmáticas
dos eufemismos políticos)
Dez por cento de fatos
eventualmente transfigurados
pelo pathos
Dez por cento de crença real
nas formas afetivas do gênero humano
Dez por cento de memória esvaída
e rumorejo de sentimentos
que perfazem no íntimo
o litígio do tempo
Todo o resto, essa pele morta
varrida para baixo
do silêncio
a ser disputada pelos vermes
enquanto se brinda, olho a olho
a soma dos produtos
eternos
que circulam entre os imortais

URNA FUNERÁRIA

os podres da história
estão à flor da terra

delicadeza
é plantar outro jarro
para milênios

guerreiro
menina
gatinho

toda flor que nasce
é suficiente

para re-
escrever
a memória
da beleza

ANTONIO AÍLTON é poeta e ensaísta participante do intenso meio cultural e literário do Maranhão, principalmente na cidade de São Luís. É também professor e pesquisador voltado para a crítica literária contemporânea. Livros mais recentes: A Camiseta de Atlas (EDUFMA/FAPEMA, 2003), MÉNAGE – Antologia Trilíngue de Poesia (Helvetia, 2020 – em parceria com o poeta Sebastião Ribeiro), CERZIR – Livro dos 50 (Penalux, 2019), MARTELO & FLOR: horizontes da forma e da experiência na poesia brasileira contemporânea (Tese, EDUFMA, 2018). Em suas atividades culturais, criou recentemente o site/portal SACADA LITERÁRIA, e é membro da Academia Ludovicense de Letras.
e-mail: ailtonpoiesis@gmail.com
Site: www.sacadaliteraria.com.br