2 poemas de ESTHER BLANCO

subir para o alto
desde as tripas
pela voz
que suba a água do poço
que o ar corra
até o grito
o canto

dizer-se
ser palavra a borbotões
sair de dentro
sendo impulso orgânico
magma jorro
pura voz de si

dizer-se água folha vento grama
pedra contra os vidros
dizer-se onda
que explode em espuma
sobre a areia
dizer-se musgo
que se dobra e brilha
sobre a pedra
dizer-se alga
na água
da onda
que a leva
contra a terra
dizer-se
naturalmente
sendo
sem pensar no que tu és

viver deveria ser fácil
como o grito

subir hacia lo alto
desde las tripas
por la voz
que suba el agua del pozo
que el aire corra
hasta el grito
el canto

decirse
ser palabra a borbotones
salir de dentro
siendo impulso orgánico
magma chorro
pura voz de sí
decirse agua hoja viento hierba
piedra contra los vidrios
decirse ola
que revienta en espuma
sobre la arena
decirse musgo
que se dobla y brilla
sobre la piedra
decirse alga
en el agua
de la ola
que la lleva
contra la tierra
decirse
naturalmente
siendo
sin pensar en la que eres

vivir debería ser fácil
como el grito

AS CARPAS

havia uma bola de vidro azul e transparente
lascada como um fóssil de pedra
pesada e velha – bela
como eu quando era uma flor amarela –
guardava-a como uma rêmora
um pedaço de outra mulher que fui

como já nada disso importa
a joguei no rio no último dia do ano
um rio azul que passa sob uma ponte
entre álamos secos
que ascendem água acima
três carpas cinzas
como sombras

LAS CARPAS

tenía una bola de vidrio azul y transparente
descascarillada como un fósil de piedra
pesada y vieja – bella
como yo cuando era una flor amarilla –
la guardaba como una rémora
un pedazo de otra mujer que fui

como ya nada de eso importa
la lancé al río la última mañana del año
un río azul que pasa debajo de un puente
entre álamos secos
que remontan agua arriba
tres carpas grises
como sombras


Esther Blanco é espanhola, filóloga hispânica e mestra pela Universidade de Barcelona. Professora de língua espanhola e literatura na Espanha e no Brasil, hoje é coordenadora acadêmica do Instituto Cervantes Salvador. Em 2016, publicou Arena de los días/Areia dos dias. Este ano publicou Levar consigo um oceano/Llevar consigo un océano. Poeta selecionada no Mapa da Palavra da Funceb, tem poemas publicados em diversas revistas na Espanha e no Brasil e participou de recitais dentro e fora do país.

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