2 poemas de SARA SÍNTIQUE

VAPOR, WALY, VAPOR

Gal canta eu mal abri os olhos Gal canta a voz dela já está a casa toda ressoa você na janela penteia os cabelos com os dedos você de olhos fechados canta e canta com ela e depois mira-me mira-me e acende um cigarro não arrisca mais adivinhar o céu e amanhã a voz de Jards eu mal abri os olhos Jards canta você canta e canta com ele os olhos fechados e acende outro cigarro e mira-me mira-me
e eu mal abri os olhos
e esse dia

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evola-se.

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vapor, Waly, vapor

CIGARRO NUM DIA DE CARNAVAL E UM NEVOEIRO

mãos tantas mãos fazendo sair dos instrumentos uma canção para que se possa dançar e a banda passa a sobrinha apanha do chão uns bastões de madeira e bate na mesa da sala de jantar a mãe reclama o pai reclama alguém toca a campainha alguém abre a porta você você bem na hora do café a chaleira apita fervendo toda a cidade treme um pouco pula a chuva as poças sujando os sapatos que num dia comum estariam mais juntos num canto da calçada porque ninguém quer se molhar contudo hoje é festa quem se importa a sujeira hoje é festa você pede um cigarro e eu ainda estou no mar no barco com a náusea a cabeça gira gira ainda tudo efeito do amor e eu não movo os pés o amor o amor esse aceleramento abrupto e descaso com os desejos falo daquelas gaivotas às seis da manhã retornando aos rios daquele dia no Arpoador pouco importa e eu não movo os pés pouco importa você diz as gotas respingam sobre a pele dessa gente toda lá fora e eu não sei quanto tempo quanto tempo já para que venha aqui buscar qualquer coisa que ficara esquecida no armário aquele dia na Ponte a gente ria era tudo tão próximo do horizonte palpável e agora um nevoeiro um nevoeiro e tuas mãos nessa janela espalham uma

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fumaça

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essa fumaça toda.

Sara Síntique é escritora, atriz e professora. Mestra em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Ceará (UFC), onde também se graduou em Letras Português – Francês. Autora do livro Corpo Nulo (Poesia, Editora Substância, 2015), escreve poemas quinzenalmente para o blog Leituras da Bel (Jornal O Povo) e publicou na antologia de poemas eróticos O Olho de Lilith (Selo Ferina, 2019).