2 poemas de JOSÉ ELIELTON DE SOUSA

A VILA EM RUÍNAS

e sobre a cidade solar
o peso calado do tempo
invade calçadas memórias

o barro argiloso despacha
antigos vestígios rupestres
da vila escorada nas águas

nos rios canoas e cadáveres
levados nas torrentes em marcha
os bancos de areia resistem

o centro desfaz a paisagem
e sob cemitérios de ossos
feirantes no mercado central

a leste a miséria da riqueza
despeja concreto nas lagoas
e erige museus e suspenses

crispim condenou-nos a todos
sem mãe sem rainha que solte
o grito entalado na garganta

BELLUM HOMINEM

queria fazer poesia
com a mesma facilidade que
os humanos fazem guerra.

um poema monstruoso,
selvagem, sangrento,
impiedosamente violento,
estúpido, como todas as guerras.

um poema estrondoso,
que explodisse em hospitais,
em escolas, asilos manicomiais
ou nos quatro cantos da terra.

um poema sobre banalidades,
como a cor de uma bandeira,
o limite imaginário de uma fronteira,
um suposto mito originário

um poema cheio de tecnicidades
potente, preciso, de última geração,
capaz de rachar o planeta numa explosão,
um sonho íntimo de bestas incendiárias.

mas nesse tempo presente,
é mais fácil fazer uma guerra
do que fazer um poema.

José Elielton de Sousa nasceu e mora em Teresina, Piauí, e foi criado no interior – para onde sempre volta, ainda que na imaginação. É doutor em filosofia, professor e poeta. Publicou o livro As virtudes da responsabilidade compartilhada: uma ampliação da teoria das virtudes de Alasdair MacIntyre [Filosofia/Editora CRV, 2017] e participou da organização dos livros Hospitalidade Hermenêutica [Filosofia/Fundação Fênix, 2020], Filosofia e um monte de outras coisas [Ensaios/EDUFPI, 2019] e Do Centro da Margem: invenções contemporâneas deste lado de cá do mundo [Ensaios/Fundação Fênix, 2024].  Malinação é seu primeiro livro de poesia.

2 poemas de VÂNIA MELO

EU AMO DISTANTE

Sem muita certeza de que preciso estar perto,
vou somando quilometragens de afeto.
Desperto e sinto que sou responsável
.                     [pela máquina de fazer amores que me torna
engrenagem de meus quereres.
Em permanente estado de paixão, me amo,
                   [amo muita gente de muitas formas, e
as formas de amar me ensinam que sou intensa,
mas…
amo distante, porque não sei bem
.                     [como se contam as cercanias,
mas amo,
porque sou tomada por um imenso sentir bonito
.                     [que me faz marejados os olhos
de amor
e me dá alguma certeza
de que ainda estou viva.

ESTRANGEIRA

Do que faço, sei,
me acho, me entendo.
Mas quantas de mim
há no que não escrevo?


Vânia Melo é filha de Dandalunda, mulher preta, baiana, escritora, professora e formadora. Doutora em Letras pelo Programa de pós-graduação em Literatura e Cultura/UFBA. Integrante do grupo de pesquisa Yorubantu/UFBA, estuda como os discursos da escrita preta, a partir da Ancestralidade Africana, instituem-se enquanto primordiais para o estudo de epistemologias próprias para leitura e elaboração de Literaturas. Em 2018, lança seu primeiro livro solo pela editora baiana Organismo: Sobre o breve voo da borboleta e suas esquinas. Em 2021, lança, pela editora Segundo Selo, Aroeira, seu segundo livro de poesia.

2 poemas de VAL MELLO

NASCIMENTO

A navalha certeira
desfere seu corte
entrega à sorte
entanguidos umbigos

Na rudeza
do empoeirado gibão
a natureza exibe
boiadeiros sem pastos
destinados a montar em sonhos

O vento os conhece pelo nome
o tempo, pela coragem
e assim são registrados
os desafiantes da morte
pelos gumes da vida.

MENINO DO CAIS

Meus versos derramam
gotas doces do engenho
misturados aos meus bagaços
triturados pelo tempo
Compõem o som das carrancas
na travessia do rio
a singrar destinos

Numa imagem amarelenta
ainda me vejo no cais
Menino magro e jocoso
hoje, só mais um idoso
que esmerilha a velhice
e se encanta com pardais.

Val Mello é piauiense, poeta, ilustradora, administradora de empresas, MBA em Gestão de qualidade, pós-graduada em Moda-arte, especializada em croquis femininos. Autora de três livros, sendo um em coautoria. Possui textos publicados em dezenas de coletâneas, sites, jornais, revistas físicas e eletrônicas, no Brasil e no Exterior. Recebeu o Prêmio Manuel Bandeira de Poesia, com o livro Vermelhos In Versos, concedido pela UBE-RJ. Recebeu o Prêmio Ecos da Literatura 2024 — categoria Melhor Ilustração de Livro Infantil. É quadrinista da série Hestrãnhuz. Faz parte do Grupo Poesia Simplesmente e compõe a diretoria da APPERJ.