A VILA EM RUÍNAS
e sobre a cidade solar
o peso calado do tempo
invade calçadas memórias
o barro argiloso despacha
antigos vestígios rupestres
da vila escorada nas águas
nos rios canoas e cadáveres
levados nas torrentes em marcha
os bancos de areia resistem
o centro desfaz a paisagem
e sob cemitérios de ossos
feirantes no mercado central
a leste a miséria da riqueza
despeja concreto nas lagoas
e erige museus e suspenses
crispim condenou-nos a todos
sem mãe sem rainha que solte
o grito entalado na garganta

BELLUM HOMINEM
queria fazer poesia
com a mesma facilidade que
os humanos fazem guerra.
um poema monstruoso,
selvagem, sangrento,
impiedosamente violento,
estúpido, como todas as guerras.
um poema estrondoso,
que explodisse em hospitais,
em escolas, asilos manicomiais
ou nos quatro cantos da terra.
um poema sobre banalidades,
como a cor de uma bandeira,
o limite imaginário de uma fronteira,
um suposto mito originário
um poema cheio de tecnicidades
potente, preciso, de última geração,
capaz de rachar o planeta numa explosão,
um sonho íntimo de bestas incendiárias.
mas nesse tempo presente,
é mais fácil fazer uma guerra
do que fazer um poema.

José Elielton de Sousa nasceu e mora em Teresina, Piauí, e foi criado no interior – para onde sempre volta, ainda que na imaginação. É doutor em filosofia, professor e poeta. Publicou o livro As virtudes da responsabilidade compartilhada: uma ampliação da teoria das virtudes de Alasdair MacIntyre [Filosofia/Editora CRV, 2017] e participou da organização dos livros Hospitalidade Hermenêutica [Filosofia/Fundação Fênix, 2020], Filosofia e um monte de outras coisas [Ensaios/EDUFPI, 2019] e Do Centro da Margem: invenções contemporâneas deste lado de cá do mundo [Ensaios/Fundação Fênix, 2024]. Malinação é seu primeiro livro de poesia.


