1 poema de MARIANA BASÍLIO

CROCODILO

Os dentes são longos e alinhados,
mesmo quando fecha a boca.
Glândulas excretam o sal,
110 milhões de anos após o
trajeto solar raiar pela Terra
em que os dinossauros foram
extintos, com vultos humanos
parindo o fogaréu, de uma vez.

Pelo Rio Nilo, bem onde há
o centro da cratera inteira,
ele arranca a cabeça d’água
e se enfileira para nos devorar,
ao que restar desses peixes.
Mesmo que o transformem
em couro, bolsas e sapatos,
o sangue frio resiste nas artérias.

A boca aberta mensura a
temperatura que o regula,
pois ele é também pedra e sono.

Antes eu não quis te dizer nada.
A brisa, o ouro, essa espécie
incapaz de ser extinta, junto
dos livros que imaginei vivos:
num imenso pavimento escuro,
o homem é devorado ao meio.
Com o peito chanfrado: a caça.
Esse inútil gosto poroso gancha
o percurso infinito — a mordida
inteira reluz na limpeza dentária.

O sonho da gélida propriedade,
o toque veloz entre nós e eles.
A carne sangra. Não há esperança
no breu da Ilha das Flores, em
Porto Alegre. Outro senhor, um
morador, está dentro do aterro de
lixo separando toneladas de restos
à criação de porcos, alimentando-os,
cheira a fritura dos cadáveres — esses
cães e o que foi humano, assassinados.

As sobras, os temperos, os ranhos.
Lavando um maço de crisântemos,
uma senhora os alimenta: a longa
fileira de crianças, pulando sedentas
pela sobremesa de quem não conhece
a diferença: aveia com açúcar basta.

A Ilha das Flores parece completa.
O quintal de jabuticabas secas com
as plantas murchas em latas de óleo,
as vozes, os dentes de leite, a alegria
de encher as mãos com um pó doce.

Se eu fosse um crocodilo, se fosse
o caso, eu me arrastaria por essa rua.
A chuva arrastaria os nossos corpos
famintos, e eu os cuidaria com a boca.
As casas se rasgariam para abrigá-los
de todo o mal que houve na fome,
e a língua salivaria com seus desejos.

Vivos, no mundo repleto de volumes,
marcaria o céu de prantos, com o nosso
continente, seu estilo e seus arranhões.
Quando eu me levantasse pela cauda,
o céu estaria morto, mas abençoaria
esse pântano fúnebre dos vencidos —
como répteis apenas, sem humanos.

O vapor dissolve essa dispersão.
O arrepio dos túmulos estufados
de ódio, encrustados de ganância.

As patas não tocariam os objetos
quase aéreos, não se beijariam, não
padeceriam pelo tempo perdido.
Os tambores, a multidão risonha
debruçada, sufocando o bem-querer.

Se eu fosse um crocodilo, suportaria
esse ocioso coração secando, parado
em frente a um futuro repentino.
E a noite vibra pesada no Brasil, mas
o meu corpo adormece mesmo assim.

Mariana Basílio nasceu em 1989, em Bauru, interior de São Paulo. Prosadora, poeta, ensaísta e tradutora. Autora dos livros de poesia Nepente (2015), Sombras & Luzes (2016) e Tríptico Vital (2018), Mácula (2020) e Pangeia (2024).

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