5 poemas de CARVALHO JUNIOR

LÂMINA E LIAME

a casca deste chão
é o umbigo da minha voz.

do trançado das folhas de palmeira
a substância da rosa de Celso Antônio:

os meus 24 centímetros de porrete
de homem negro brasileiro.

a alma cacunda das ladeiras,
o uivo da lâmina do machado,

os impulsos da mão de pilão,
a quebradeira e seus aleijos,
o sopro-enigma da juriti-pupu,
o cascudo debaixo da pedra
.
.
.
daí o caroço da funda lágrima,
o gongo da infância em fogo-sezão.

TAPUIA

há palavra inventada
para o que teu sorriso esculpe?

para o voo de luz que se embrenha
nos parques e borboletas do sonho?

para a margem esquerda de um céu,
de sílabas mansas, que me fluem
como uma ponte sem nome?

nem mesmo Neruda concebeu
o ímpeto da cascata do teu riso.

e as lavadeiras, em coreografia,
pedem um dilúvio dessa flama-opala
que sombreia o homem no quintal.

as lâmpadas da catedral,
que se esboçam nos teus
lábios quentes de tapuia,

me inundam de volúpia,
me ungem o corpo todo
de cupuaçu e água de rio.

TRINADOS

nada me quebra
o torno do assovio.

nada no mundo
me descriançaliza.

vivo, o tempo todo,
com meus pássaros.

O ESCURO DO MEU RISO

o escuro do meu riso assusta a lâmpada,
o semblante da cozinha inundada.
a dor, punhal da sorte que me invade,
papoula rubra que dorme meu enfarte.
a noite é um orgasmo de cinzas,
tem uma face triste de domingo,
as lágrimas que me rasgam, não as sinto.
algo, antes de mim, que de mim se vinga?
tosse, forte, aqui, uma angústia infinita.
serei eu filho de um carbono maldito?
o escuro do meu riso acorda a lâmpada,
geme o último raio da alegria,
regenera-me as cordas da garganta,
salva-me o peixe depois da asfixia.

CIGANA ACROBATA
para Clarissa Macedo

ó, tijubina, lagarta do mato,
arco sagrado das minhas janelas,
infâncias se acendem em tua cauda,
rabo teimoso do chão de malícias.
amo a disciplina da tua fuga,
do teu chicote amarrado de pontes,
cigana acrobata, graça na areia,
em cada cipoada doze pélagos.
dança assim nua nesta frágil manhã!
menina índia me embira na ginga,
bebo o melão com mel de tua língua.
sou tijubinocentrista incurável,
amor aceso, voa sobre os verdes.
miro-te sempre em meus morros de pedra.

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